quarta-feira, 29 de julho de 2015

Por moradia, integrantes do MTST ocupam dois terrenos no DF

Integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) ocupam terrenos de Planaltina e Samambaia, no Distrito Federal. O grupo se instalou nos locais na madrugada de sábado (25) e reivindica políticas habitacionais para atender famílias que realizam as ocupações, além de cobrar respostas de negociações feitas com o Executivo. Segundo o movimento, cerca de mil famílias participam das invasões.

Segundo a Polícia Militar, 400 pessoas participam da invasão em Planaltina e 300 em Samambaia. A PM acompanha os manifestantes. Outros 150 trabalhadores ocupavam o Centro de Referência e Assistência Social (Cras) de Ceilândia, pela manhã, segundo a corporação.

A Secretaria de Relações Institucionais e Sociais afirmou que vai se reunir com integrantes do movimento nesta terça (28) para discutir as demandas do grupo. O encontro também vai contar com a presença de representantes da Terracap e da Secretaria de Desenvolvimento Humano e Social.

Em Planaltina, a invasão ocorre em um terreno na entrada da Estância Mestre D' Armas, na BR-020. Em Samambaia, o terreno invadido fica na quadra 201, segundo o MTST. Os grupos usaram pedaços de madeira para montar barracos de lona.

O MTST disse reivindicar ainda o destravamento do Minha Casa Minha Vida, a destinação de terreno para a construção de moradia popular por meio de recursos do programa e o encaminhamento imediato das pendências do edital de Planaltina e início das construções.

A coordenadora do MTST Maria Almeida afirmou que no início do ano o movimento se reuniu com vários órgãos do governo, após a entidade ocupar seis terrenos da capital federal em fevereiro. Ela disse que durante as negociações ficou acertada a doação de terrenos.

"Disseram também que as construções seriam iniciadas e nada disso foi cumprido. Desocupamos na época pacificamente, as famílias saíram, mas ficou avisado tambem que se eles não cumprissem, as famílias iam voltar. Agora só desocupamos quando eles entregarem os terrenos para as entidades."

São pessoas autônomas que fazem bicos, trabalham de diarista, vigiam carros. A maioria tem crianças, não tem creche na cidade para colocar. Não estamos lá só pela moradia digna, mas entendemos que não é só ter um lar, é ter hospital público, colégio e transporte de qualidade."
Eduardo Borges,coordenador do MTST
 
O coordenador Eduardo Borges afirmou que a maioria das famílias acampadas em Samambaia recebem menos de um salário mínimo. "Tem pessoas que vivem em situação de vulnerabilidade, que vivem de favor, algumas delas em situação de risco, em albergues. São pessoas que passam por muitas dificuldades. A maioria delas a renda da família não passa de um salário minimo", declarou.
"São pessoas autônomas que fazem bicos, trabalham de diarista, vigiam carros. A maioria tem crianças, não tem creche na cidade para colocar. Não estamos lá só pela moradia digna, mas entendemos que não é só ter um lar, é ter hospital público, colégio e transporte de qualidade."

Comissão Nacional da Verdade entrega relatório final ao Arquivo Nacional

Testemunhos de vítimas e de parentes, depoimentos de agentes da repressão política e 47 mil fotografias estão entre os mais de 100 mil documentos sobre violações de direitos humanos cometidos durante o regime militar produzidos pela Comissão Nacional da Verdade (CNV) e entregues hoje (24) ao Arquivo Nacional, no centro do Rio. Os documentos passam por um processamento técnico e de digitalização e estarão progressivamente disponíveis ao público a partir de 15 de agosto, pela internet.

O coordenador da CNV, Pedro Dallari, ressaltou que parte da publicação, que resultou em três volumes, pode ser acessada online no portal do órgão onde é possível fazer o download dos mais de 4 mil documentos citados no relatório.

"Aqueles documentos que são expressamente mencionados no relatório já estão disponíveis na internet. Basta clicar no nome do documento. O pesquisador pode ter acesso aos documentos sem sair do lugar. Mas o volume total dos mais de 100 mil documentos, creio, até o final do ano estará disponível pela internet”, explicou. Laudos periciais, autópsias e todo o material filmado das diligências e audiências também estão integralmente reproduzidos e acessíveis na internet.

Dallari adiantou que a Casa Civil está providenciando a tradução em inglês dos volumes 1 e 2 e que a Universidade de São Paulo está providenciando com a Universidade de Salamanca, na Espanha, a tradução de partes do acervo para o espanhol.

O ministro de Direitos Humanos, Pepe Vargas, assinou a portaria que formaliza a entrega do acervo documental ao Arquivo Nacional. Para ele, a divulgação e promoção do conteúdo do acervo podem ajudar a prevenir novas violações. “Lamentavelmente, ainda assistimos a violações de direitos humanos perpetradas cotidianamente por agentes públicos".

Segundo ele, ao resgatar a memória, ao buscar a verdade, é preciso também fazer a prevenção. Vargas citou o desaparecimento do pedreiro Amarildo como um dos exemplos. “Precisamos não apenas colocar luz sobre o nosso passado, mas também trabalhar para termos mecanismos de prevenção. Quando vemos situações onde pessoas saem às ruas para reivindicar o retorno da ditadura, que violou direitos, vemos que o trabalho de memória e verdade é mais do que necessário para construir uma cultura de direitos humanos.” Amarildo de Souza desapareceu no dia 14 de julho de 2013, após ter sido detido por policiais na Favela da Rocinha.

Muito emocionada, a jornalista Hildegard Angel, irmã do desaparecido político Stuart Angel e filha da estilista Zuzu Angel, também ressaltou a importância de se divulgarem as atrocidades cometidas no chamado período do chumbo. “A ditadura [1964-1985] não sai de nós. É uma fissura que jamais se fecha", disse Hildegard.

Para a jornalista, contar, relatar, lembrar a ditadura é uma missão que jamais se esgota. "Para muitos de nós, que não temos corpos, o Arquivo Nacional agora é o nosso cemitério. Estamos sedimentando nossa história, nossa memória nas páginas da história do país, que tem que ser contada todos os dias, refazer esse tapete de crueldades e recontá-lo para as novas gerações, pois muitos já colocam nossos parentes do lado do mal, como se isso fosse possível.”

Hildegard disse que a Comissão Nacional da Verdade cumpriu sua missão com seriedade. “Sem espetacularizar o nosso sofrimento e suas ações, ela conseguiu alcançar muitos objetivos. Não todos os que os familiares pretenderíamos, mas muito além do que pensávamos.”

A presidenta da Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro e integrante da CNV, Rosa Cardoso, pediu a Pepe Vargas que reitere à presidenta Dilma Rousseff a demanda dos movimentos sociais por memória, verdade e justiça e de criar um órgão que dê continuidade ao trabalho da Comissão da Verdade. A comissão foi encerrada com a conclusão do relatório em dezembro do ano passado.

“A existência desse órgão é importante para continuar a juntar esses materiais mais nacionalmente, dos locais mais recônditos do país, para contarmos uma história do que o Brasil viveu, não só nas cidades, como também no campo e com as populações indígenas”, acrescentou.

Rosa disse que ainda é necessário estudar e compreender melhor a natureza do regime militar brasileiro, que considera mais brutal do que o nazismo, em alguns aspectos. “O nazismo desumanizou os judeus e outros grupos, que foram segregados, conduzidos para campos de concentração, dizimados. Foi um genocídio. É um crime gravíssimo, mas, do ponto de vista da violência interpessoal, a tortura que se impôs no Brasil foi muito mais aguda. Estamos falando de crueldades, como a de cortar a vagina de uma mulher, [ter] órgãos e útero arrancados, torturar crianças, quebrar maxilares, tudo autorizado por oficiais e superiores em uma cadeia hierárquica que ia até o presidente da República.”

O ministro Pepe Vargas se comprometeu a levar a mensagem à presidenta e defendeu a continuidade das investigações. “Há um trabalho ainda enorme por ser feito. Não tenho dúvida da necessidade desse órgão. Lamentavelmente, ainda assistimos cotidianamente a violações de direitos humanos perpetradas por agentes de Estado, como no caso do Amarildo", afirmou Vargas.

Criada em 2011, a comissão fez uma série de audiências pelo país e contou com o apoio de comissões estaduais nas investigações e pesquisas. Foram levantados documentos que comprovam a morte de mais de 430 vítimas do regime militar e milhares de violações de direitos humanos cometidas pelo estado.

Por que o 'Minha Casa, Minha Vida' da Venezuela supera programa brasileiro?

Tese de doutorado apresentada na Unicamp conclui que Gran Misión Vivienda superou em qualidade outros programas do subcontinente ao de fato enfrentar a especulação imobiliária

Alvo de críticas internacionais devido à violência e intimidação com que trata oposicionistas e por ter um sistema de governo muitas vezes classificado como populista, a Venezuela conseguiu desenvolver o mais eficiente programa de habitação popular da América Latina. Foi o que concluiu uma tese de doutorado, apresentada na Universidade de Campinas (Unicamp), feita pela economista Beatriz Mioto. A pesquisadora comparou os diferentes modelos aplicados em países de dimensões econômicas e demográficas semelhantes – além da Venezuela, Brasil, Colômbia e México.
O presidente Nicolás Maduro entrega a casa 700 mil de seu programa habitacional, em abril 
"Não foi propriamente uma surpresa para mim a política habitacional venezuelana ter atendido a maior base social do governo e de maneira mais abrangente do que as demais", analisa Beatriz em entrevista ao iG. "A política habitacional venezuelana responde a uma conjuntura política única, de ascensão de um importante líder popular [Hugo Chávez], aliada ao aumento do preço do petróleo no mercado internacional, que permitiu inversões importantes no campo social."
Para chegar à conclusão, Beatriz realizou uma ampla pesquisa a respeito da história econômica e dos modelos de política habitacional na América Latina, que resultou na tese “As Políticas Habitacionais no Subdesenvolvimento: os Casos do Brasil, Colômbia, México e Venezuela (1980/2013)". O estudo foi feito ao longo de quatro anos e incluiu, além da pesquisa documental, visitas aos países inseridos para realizar pesquisas em bibliotecas, órgãos de planejamento e conjuntos habitacionais.
De acordo com Beatriz, as mudanças que levaram ao que chama de uma "política habitacional única na América Latina" vieram no momento em que a boa fase econômica se encontrou com um governo mais voltado para as classes mais baixas, com uma série de programas sociais.

Parte do Sistema Nacional de Missões – também conhecido como Missões Bolivarianas –, o programa, batizado de Gran Misión Vivienda (Grande Missão Moradia), começou de fato em 2011, após grandes enchentes desabrigarem e matarem milhares de pessoas no país, sempre em áreas periféricas, onde a estrutura é, assim como no Brasil, precária. Desde o início, o foco foi no atendimento àqueles de baixa renda que sofreram prejuízos. Segundo informações oficiais, até 25 mil venezuelanos morreram como consequência das chuvas no país no final de 2010.

A partir de então, foi realizada uma ampla política iniciada com o mapeamento de terrenos vagos e irregulares, que, quando consideradas abandonados ou com uso inadequado – como ocorre para se justificar boa parte das ocupações realizadas por movimentos sem-teto no Brasil –, passaram a ser desapropriados, em um verdadeiro enfrentamento contra a especulação imobiliária.

Desta forma, o programa foi capaz de viabilizar a parte da população não só imóveis em terrenos mais bem localizados (em áreas centrais ou próximas a estações de metrô, por exemplo), mas residências voltadas especialmente às pessoas que realmente necessitavam – em sua maioria, prejudicadas pelas enchentes de 2010 –, não àquelas que teriam condições de comprar suas casas por meio de crédito no mercado.

"A periferização também é muito cristalizada na paisagem urbana em Caracas [capital da Venezuela], por exemplo, que visitei. Mas a política atual mitigou o problema, principalmente daqueles que se encontravam desabrigados e em áreas de risco iminente", ressalta Batriz. "Isso não significa que o problema esteja perto de ser resolvido, mas que a experiência venezuelana serve para a reflexão de como aproximar a casa não só do direito à moradia como, especialmente, do direito à cidade."
Ocupação de prédio em São Paulo, no ano passado: pressão levou à reintegração de posse

Dia do Trabalhador Rural comemorado com marcha do MST

Integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST/SE), realizam desde às 10h desta sexta-feira, 24, a 13ª Marcha Estadual em comemoração ao Dia do Trabalhador Rural. Assentados e acampados chegaram logo cedo ao viaduto da entrada de Aracaju, de vários municípios.
A Marcha estadual do MST tem como objetivo chamar a atenção da sociedade e das autoridades públicas para a urgência da Reforma Agrária Popular no Brasil e a importância da agricultura familiar para o desenvolvimento do país. E, cobrar do Governo do Estado, agilidade no processo de aquisição de terras, visando assentar as 9.365 famílias acampadas no estado.

“À cada ano que passa, devemos estar lembrando das leis em prol da realização da Reforma Agrária e dar continuidade à luta por terras produtivas aqui em Sergipe”, destaca a integrante do Movimento Organizado de Trabalhadores Urbanos (Motu), Camila Paula da Silva de Lima, Recanto das Mangabeiras, na Zona de Expansão.
Em caminhada, os integrantes do MST, saíram da Br-101, passaram pela Praça Ranulfo Prata, onde haverá um momento de confraternização e um almoço coletivo e, por volta das 16h, farão um ato público na Praça General Valadão.

sábado, 25 de julho de 2015

AINDA NA LUTA CONTRA AS DROGAS.

Conselheiro da OAB afirma que legalização de 

drogas pode aumentar acidentes de trânsito.


Conselheiro da OAB afirma que legalização de drogas pode aumentar acidentes de trânsito

O conselheiro da seccional baiana da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-BA), Waldir Santos, afirmou que a legalização de drogas poderá aumentar o índice de acidentes de trânsito por não haver mecanismo para aferir o uso de entorpecentes ilegais por motoristas. A declaração do conselheiro foi feita durante a audiência pública da OAB-BA que debateu políticas de drogas no Brasil nesta sexta-feira (24) em Salvador. Waldir Santos, que se opõe a legalização das drogas, afirma que a liberação aumentaria o consumo de entorpecentes, e, com isso, também aumentaria os acidentes de trânsito. Para ele, o debate sobre a legalização das drogas não está sendo feito com sinceridade e que “as pessoas estão sendo enganadas no varejo”, não havendo divulgação de que as drogas ilícitas são as maiores causadoras de acidentes. O conselheiro cita uma pesquisa realizada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul sob encomenda do Ministério da Justiça, que na época era o órgão que abrigava o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) – que hoje é do Ministério das Cidades. “Essa pesquisa mostra que, diferentemente do que a população pensa, não é o álcool que mata mais. O álcool tem como ser medido através de exames de sangue nos hospitais de emergência, em necrotérios e nos bafômetros. Você tem um índice de utilização do álcool como causador de acidentes. Mas o mesmo não acontece em relação as outras drogas, as drogas ilícitas. Essa pesquisa desmistificou essa questão, mas infelizmente, a ela não foi dada a divulgação que as políticas públicas de prevenção a drogas sejam ilícitas ou licitas, tomassem um rumo em consonância com as necessidades da sociedade”, diz o conselheiro. Waldir Santos afirma que “tem muita gente morrendo em acidente de trânsito, perdendo familiares, e achando que é o álcool que está matando”. “O rigor com relação ao álcool deve até ser aumentado. Eu acho que as blitzes devem ser intensificadas. A regra, pela consequência que o uso do álcool ocasiona, deveria ser até mais rigorosa do que é, mas os estudos mostram que o principal causador de acidentes de trânsito não é a droga lícita”, destaca. O Código de Trânsito Brasileiro (CTB) proíbe a direção sob o efeito de substâncias entorpecentes. “O problema é que nós só temos medidores para substâncias entorpecentes de álcool. Não temos para outros. Nesse estudo que foi feito pela universidade, foram utilizados, além do bafômetro para o caso do álcool, a testagem com saliva em partes da pesquisa, e a testagem com sangue, em outra parte da pesquisa. São aferições fora de qualquer dúvida. Existe embasamento cientifico para testagem dessa forma. Já existe no mercado internacional equipamentos que verificam o consumo dessas substâncias em testes rápidos. Mas esse trabalho de testagem ainda não foi popularizado, não foi expandido de forma que os governos de outros países, como o Brasil, comecem a utilizar. As vezes, o policial até percebe que a pessoa está sob efeito de uma substância. Eles usam o bafômetro, não detectam nada, porque a pessoa não utilizou álcool, e a pessoa sai dirigindo, expondo a risco a vida de outras pessoas”, afirma. Ele finaliza afirmando que se não houver uma mudança na forma de testagem, o álcool vai continuar sendo o vilão dos acidentes de trânsito. 

Do Bahia Notícias.

LUTA CONTRA AS DROGAS

'Comunidades terapêuticas não têm eficácia 

comprovada', diz militante pela legalização.

'Comunidades terapêuticas não têm eficácia comprovada', diz militante pela legalização

“A política de drogas é o remédio que é pior que a doença”. Foi desta forma que Luana Malheiro, integrante da Rede Latinoamericana de Pessoas que Usam Drogas, definiu a atual política de combate às drogas praticada no Brasil durante sua fala na audiência pública sobre o tema realizada na manhã desta sexta-feira (24), na sede da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Bahia (OAB-BA). Crítica ferrenha do regime de combate à entorpecentes aplicado no país, o qual ela denomina como “guerra às drogas”, Luana afirma que a política atual não vai cuidar da saúde dos usuários de drogas e ainda a culpabiliza por ações como a ocorrida em fevereiro deste ano no bairro do Cabula, que culminou na morte de 12 pessoas. “Num ambiente de guerras às drogas, de combate ao tráfico, presenciamos a chacina do Cabula, o caso Amarildo”, afirmou em sua fala. Em entrevista ao Bahia Notícias, a integrante da Rede Latinoamericana de Pessoas que Usam Drogas ainda fez críticas ao financiamento governamental de comunidades terapêuticas, que, muitas vezes, pertencem a instituições religiosas. Para Luana, investir dinheiro público nestas clínicas é “retirar recurso para fortalecimento da política nacional para serviços que não têm eficácia comprovada”. Ela ainda tece críticas ferozes ao trabalho realizado pelas instituições e afirma que a lógica de tratamento praticada por eles leva à reincidência dos usuários de entorpecentes. “A gente tem uma série de pesquisas que comprovam que os usuários que passam por comunidade terapêutica, quando saem, eles vão reincidir”, afirmou. “A lógica é criar um ambiente artificial para aquele sujeito, com pessoas artificias, eles não vão ficar lá a vida inteira. Eles precisam a regular o uso e ter o tratamento ocupando os espaços da cidade, sendo inseridos no mercado de trabalho e essa lógica dos centros de atenção psicossociais”, sugeriu. Para ela, a imposição da abstinência feita pelas comunidades terapêuticas é algo que fere os direitos humanos.  “Quando você lida com um usuário que usa 20 pedras de crack por dia, é muito difícil que você exija que ele entre nessa instituição e fique em abstinência, ou, então, que faça uma conversão religiosa. São instituições que não têm profissionais qualificados para lidar com a temática, que é importante, e a gente precisa ter um maior aprofundamento”, concluiu.

Do bBahia Notícias. Foto: Luana Malheiro, por Cláudia Cardoso.

UNEGRO. 27 ANOS DE MUITA RAÇA.

Aos 27 anos, Unegro comemora vitórias e aponta os novos desafios.


O destaque que os principais jornais em circulação na Bahia deram no dia 14 de julho de 1988 – e nos dias seguintes – esteve relacionado às comemorações no mundo pelo 199º aniversário da Tomada da Bastilha (1789), episódio central da Revolução Francesa. Nenhuma linha foi destinada a noticiar um evento local que tinha os mesmos ideais do movimento francês (Liberdade, Igualdade e Fraternidade) e que, também, pretendia revolucionar, embora a data escolhida pelos baianos nada tivesse a ver com o centenário episódio. Uma mera coincidência.

Foi reunido na Biblioteca Pública do Estado, no bairro dos Barris, em Salvador, que o grupo, com orientação marxista e ligado ao movimento negro baiano, lançava, naquele 14 de julho de 1988, a Unegro (União de Negros pela Igualdade). Com o acontecimento, surgia uma nova perspectiva na condução da luta antirracista no Brasil. Sob influência do professor Clóvis Moura, respeitado e pioneiro pesquisador do tema, a entidade rompeu com o entendimento predominante de que racismo era um fenômeno isolado de separação de brancos e negros.

Ao contestar a visão reducionista do movimento negro – e também da esquerda -, a Unegro propôs entrelaçar às questões de raça uma concepção de classe. Formou, assim, a base que conduziria a atuação da entidade dali pra frente – depois, foi incluída também a questão de gênero. O momento da criação foi propício, dadas as condições favoráveis do novo cenário político, marcado pelo fim da ditadura militar (1964-1985) e pelo início do processo de redemocratização do país. Ainda assim, a criação da Unegro não se deu sem resistências.

O primeiro desafio da entidade foi interno. O rompimento com a lógica proposta pelo movimento negro da Bahia, até então muito caracterizado pelas atividades culturais, com a atuação dos blocos afros de carnaval, não foi de todo pacífico. A Unegro defendia um enfrentamento mais ‘rebelde’ do racismo. “O negro não quer só tocar tambor” era uma das frases apresentadas pela nova corrente. Em relação à esquerda, a entidade contrariou o entendimento de que era preciso esperar as transformações sociais acontecerem para se conquistar a igualdade racial. Propunha uma luta concomitante.

“A Unegro levou para setores vastos a importância de lutar contra o racismo hoje e não esperar as transformações da sociedade. Antes, achava-se que o racismo era uma questão a ser resolvida com a questão de classe. Existiu uma certa discriminação, mas, à medida que a Unegro começou a desenvolver suas lutas e estar ao lado das entidades do movimento, foi conseguindo espaço. Mas foi um processo longo”, contou Antônio Carmo, fundador e 1º presidente da entidade.

O segundo desafio foi externo e estava relacionado à disseminação, naquele período de abertura política, da ideia de que havia uma democracia racial no Brasil. A defesa da Unegro é de que o racismo era muito mais profundo do que se supunha e que estava enraizado na sociedade brasileira. Mirou-se na acadêmica, antro de brancos, para deixar um recado: o negro não quer mais ser apenas o objeto de estudo; o negro quer produzir estudo.

Nivaldino Félix, também um dos fundadores, explicou que os anseios por uma ‘rebelião’ no modo do negro estar na sociedade já eram latentes muito antes de 1988, ano da criação da Unegro. Lembrou de uma atividade considerada fundamental em que ele, Valdir Estrela e Leo Ornellas (também fundadores da Unegro), que formavam um grupo informal de negros no bairro de Nordeste de Amaralina, participaram no município de Uberaba (MG), em 1985. Era um encontro proposto pelo prefeito da cidade, Wagner Nascimento, que era negro, com lideranças negras e o então presidente da República, José Sarney.

Em Minas, os três baianos participaram de discussões sobre a importância da ascensão da população negra e da inserção nos espaços de Poder, como forma de garantir um olhar mais sensível para a luta contra a desigualdade. Wagner Nascimento era uma das grandes referências, pois entrou para a História como o segundo prefeito negro do Brasil. Na volta, o trio estava embebido pelo desejo de transformação social e encontrou novos parceiros para a organização de um grupo mais sólido e formal, como Antônio Carmo, que se tornaria o 1º presidente.

A escolha do nome foi feita democraticamente e traduz, segundo Antônio Carmo, as bases que compõem a entidade. A ‘União de Negros’ está relacionado à luta racial e ‘pela Igualdade’ se refere ao ideal socialista. Nivaldino lembra que a primeira atividade, após a criação, aconteceu também na Biblioteca Pública dos Barris e se tratava de um debate sobre o negro e as crianças abandonadas nas periferias. Disse que foi um sucesso. “Foi muita gente ouvir as nossas propostas”, contou.

As primeiras tarefas, ainda de acordo com Nivaldino, estavam concentradas no esforço de ampliar os debates sobre o racismo, principalmente, nos bairros populares de Salvador. Foram criados núcleos nas comunidades da Liberdade, Nordeste de Amaralina e Cosme de Farias. “Nós construímos a entidade dentro das comunidades. A gente precisava fazer uma discussão diferenciada e levar para a negrada”, acrescentou Nivaldino.

Antônio Carmo explicou que o objetivo, naquele primeiro momento, era atuar em conjunto e de maneira mais ampla. “O grande esforço foi tirar o movimento negro do gueto, pois ficava preso em estereótipos e dogmas que atrasavam muito a luta da discriminação”. Ao analisar a história da Unegro, disse que muitas vitórias foram alcançadas em relação a esse objetivo, mas que ainda muito é preciso fazer pela mobilização do povo negro.

Pouco mais de um ano após a criação, em setembro de 1989, a Unegro apresentou, em parceria com o Olodum e com a APLB-Sindicato, uma emenda popular à Assembleia Estadual Constituinte, que propunha incluir no documento um capítulo relacionado à discriminação racial. Dos quatro artigos sugeridos, três foram aprovados pelos constituintes. Uma vitória significativa para a entidade recém-criada, que consegue, de fato, o respeito entre o movimento negro e a esquerda.

Neste ano de 2015, a Unegro completa 27 anos, comemorados na última terça-feira (14). Neste percurso, diversas e importantes foram as mobilizações de combate ao racismo não só na Bahia. A entidade cresceu, se espalhou e deixou de ser estadual. Hoje, está presente em 24 estados e no Distrito Federal. Comemora as recentes e históricas vitórias da população negra, como as políticas de cotas nas universidades e no serviço público, a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial e o reconhecimento dos direitos dos trabalhadores domésticos, por exemplo. No entanto, aponta para desafios novos.

“Ainda é preciso muito avançar. O povo precisa ter reparação, política compensatória, com o olhar do povo negro e não com o olhar burguês e capitalizado. Tudo isso é muito pouco diante do que o povo negro sofreu nessa nação. Produziu a riqueza desse País e essa riqueza nos foi negada. A riqueza da educação e da terra, que representa a dignidade da pessoa humana”, afirmou Sirlene Assis, presidenta da Unegro na Bahia. Ela defendeu que a tarefa, agora, é enegrecer os espaços.

Sirlene é a primeira jovem a presidir a instituição e diz que encara o desafio com a responsabilidade de falar para e pela população negra. “Presidir a Unegro é uma missão da minha ancestralidade”, disse. É também a segunda mulher na liderança estadual. A primeira foi Olívia Santana, um dos nomes mais expressivos do movimento negro, hoje. Olívia foi vereadora de Salvador e teve o mandato voltado, principalmente, para as políticas de igualdade. Atualmente, está à frente da Secretaria de Políticas para as Mulheres do Governo do Estado e da Secretaria Nacional de Combate ao Racismo do PCdoB.

Nacionalmente, a Unegro é presidida por Edson França. O próximo congresso está marcado para acontecer em abril do ano que vem. A entidade é uma das poucas a conseguir fazer congresso de quatro em quatro anos e a reunir uma média de 800 delegados nos encontros. Os desafios para a entidade são, para Jerônimo Júnior, secretário nacional de Organização, na verdade, sempre os mesmos: continuar buscando a unidade da sociedade brasileira.

Do portal Vermelho.