quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Na TV, ex-ministra Zélia Cardoso critica a presidente Dilma





A economista Zélia versus a economista Dilma.

Na noite de domingo (18), o Manhattan Connection recebeu como convidada a ex-ministra da Fazenda Zélia Cardoso de Mello.

Caso a presidente Dilma Rousseff tenha assistido ao programa, provavelmente acordou de mau humor nesta segunda-feira.

Zélia é sempre lembrada pelo confisco das cadernetas de poupança no início da presidência de Fernando Collor, em 1990.

Na atração da GloboNews, ela foi sabatinada pelos apresentadores Lucas Mendes e Caio Blinder, que estavam ao seu lado no estúdio em Nova York; por Diogo Mainardi, de Veneza; e Ricardo Amorim, de São Paulo.

Amorim, que também é economista, perguntou qual conselho Zélia daria ao atual ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que tem a missão de tirar a economia brasileira da estagnação.

A ex-ministra não quis atuar como conselheira, mas fez uma análise da situação, com uma crítica direta à postura da presidente Dilma Rousseff:

“O ministro (Levy) tem todas as condições de controlar e colocar a economia em um estado melhor. Ele tem os instrumentos, tem a competência e a capacidade para fazer isso. O que ele não tem e eu tinha, quer dizer, não sei se ele não tem, é o apoio da presidente. Essa é a grande questão que nós vamos ter que testar nos próximos seis meses a um ano. (…) Nesse período ele vai precisar de apoio político da presidente da República, e isso, sinceramente, eu não sei se ele tem. Até agora, pelos discursos da presidente, inclusive no discurso de posse, eu não vi nada que indicasse que ela esteja disposta a suportar todas as medidas que eles (equipe econômica) vão ter que tomar. Medidas essas que não são agradáveis”.

A ex-ministra também se queixou da decantada passividade do povo brasileiro diante dos recentes escândalos envolvendo o governo.

“A corrupção é uma coisa gravíssima. Afeta todas as camadas da sociedade, altera os valores, prejudica, e acaba tendo uma influência econômica muito grande. (…) O povo brasileiro é muito feliz, e isso é um defeito, um problema. É um povo muito tolerante. Consegue conviver com coisas ruins durante muito tempo. Não sei qual vai ser o grau de tolerância, deveríamos estar já no limite”, disse Zélia.

A ex-ministra, que deixou o governo Collor em maio de 1991, quase um ano e meio antes de o então presidente renunciar devido ao processo de impeachment, está radicada em Nova York há 18 anos.

Vive sozinha, já que os filhos Rodrigo e Vitória, de seu casamento de seis anos com o humorista Chico Anysio, saíram de casa para fazer universidade.

Zélia Cardoso de Mello é sócia de uma consultoria que indica boas oportunidade para investidores.

Anistia em xeque

Integrantes do Levante Popular da Juventude promovem o primeiro ato público pela punição de torturadores depois que a Comissão Nacional da Verdade responsabilizou 359 agentes do Estado pelos crimes da ditadura e recomendou a revisão da lei que os beneficia

Jovens protestam em São Paulo - Foto: Mídia Ninja

Eles não tinham nascido há 35 anos, quando a Lei de Anistia foi aprovada no Congresso Nacional. Com a indignação dos que clamam por justiça, cerca de 200 integrantes do movimento Levante Popular da Juventude fecharam por 30 minutos a rodovia Washington Luís, na altura da cidade paulista de São Carlos. Entre rolos de fumaça de pneus queimados, eles pediram “punição aos torturadores da ditadura”. Foi o primeiro protesto de rua em torno de um debate que recrudesceu a partir do relatório da Comissão Nacional da Verdade: a Lei de Anistia deve beneficiar os agentes de Estado que sequestraram, torturaram, mataram e ocultaram cadáveres?

Sem poderes para processar ou punir, a Comissão da Verdade foi explícita ao apontar responsabilidades e recomendar a revogação parcial da Lei de Anistia. No relatório final, ela responsabiliza 359 pessoas pelas “graves violações” ocorridas durante a ditadura militar (1964-1985), entre elas os cinco generais que ocuparam a Presidência da República no período – Humberto Castelo Branco, Arthur da Costa e Silva, Emílio Garrastazu Médici, Ernesto Geisel e João Figueiredo. A inclusão de Costa e Silva no rol de responsáveis pelos crimes que culminaram em pelo menos 434 mortes e desaparecimentos forçados fez movimentar uma retroescavadeira na cidade gaúcha de Taquari, onde ele nasceu.

Por ordem do prefeito Emanuel Hassen de Jesus (PT), que não se deu ao trabalho de consultar os moradores, foi derrubado o busto de Costa e Silva que estava desde outubro de 1976 na praça Lagoa Armênia. O mesmo destino teve a placa informando ter sido naquele lugar que ele “organizou seu primeiro pelotão de meninos”. A escultura foi transferida para a Casa Costa e Silva, um centro de cultura criado na residência onde ele passou a infância. Ficará em exposição permanente, ao lado de uma cópia do relatório da Comissão da Verdade.

Três meses antes da derrubada do busto, a Câmara Municipal de Porto Alegre já havia rebatizado como Avenida Legalidade uma via que se chamava Castelo Branco. O novo nome remete à campanha desencadeada em 1961 pelo então governador Leonel Brizola para garantir a posse do vice-presidente João Goulart, depois da renúncia do presidente Jânio Quadros. Quase 51 anos depois do golpe civil-militar que impôs uma ditadura ao Brasil, essas iniciativas refletem mudanças na forma de encarar a lei que acabou anistiando aqueles que cometeram crimes em nome do Estado.

Busto de Costa e Silva derrubado em Taquari (RS) - Foto: Divulgação

Em países vizinhos que também amargaram ditaduras, o desfecho foi diferente. Na Argentina e no Chile, 771 pessoas estão condenadas por atos praticados durante o regime de exceção, segundo levantamento da organização Human Rights Watch. Só na Argentina são 416 condenados. Entre eles estava o ex-ditador Jorge Rafael Videla, que morreu por causas naturais aos 87 anos, na cela de um presídio comum de Buenos Aires, em março de 2013. Cumpria sentença de prisão perpétua por crimes contra a humanidade. A mesma condenação pesa sobre a cabeça do sucessor de Videla na Casa Rosada, Reynaldo Bignone.

No Chile, o general Augusto Pinochet encontrava-se em prisão domiciliar quando morreu, aos 91 anos, em dezembro de 2006. O chefe da polícia secreta de Pinochet, general Manuel Contreras, cumpre sentença de 300 anos de prisão, pela tortura, sequestro e morte de opositores do regime. Outros 352 violadores dos direitos humanos no Chile também foram julgados e condenados. Em ambos os países, o processo de levar à Justiça os antigos detentores do poder foi marcado por avanços e retrocessos. Só que, ao contrário do Brasil, neles uma comissão da verdade foi instalada logo depois da queda da ditadura. E foram justamente os relatórios dessas comissões que forneceram a base para a abertura de processos judiciais.

Instalada 27 anos depois de o último general deixar o Palácio do Planalto, a Comissão Nacional da Verdade precisou investigar episódios sedimentados – muitas vezes ocultados – no decorrer do tempo. Enfrentou também resistência dos novos comandantes das Forças Armadas, que insistem em não liberar a documentação produzida no período. Conseguiu esclarecer apenas três dos 210 casos de desaparecimentos forçados. Ainda assim, coletou depoimentos e documentos suficientes para concluir que “a extensão da anistia a agentes públicos que deram causa a detenções ilegais e arbitrárias, tortura, execuções, desaparecimentos forçados e ocultação de cadáveres é incompatível com o direito brasileiro e a ordem jurídica internacional”.

O tema é controverso. Ao receber o relatório, a presidenta Dilma Rousseff fez referência à Lei de Anistia, sem citá-la de forma direta: “Assim como reverenciamos os que lutaram pela democracia, também reconhecemos os pactos políticos que nos levaram à redemocratização”. Na prática, o acordo que pavimentou o retorno à democracia começou com uma campanha popular por uma anistia “ampla, geral e irrestrita”. A meta era abrir caminho para a volta dos brasileiros que estavam no exílio e libertar os presos políticos.  O projeto enviado ao Congresso Nacional pelo governo do general João Figueiredo foi restrito (não completava adversários do regime envolvidos em crimes de sangue) e concedia anistia aos que cometeram crimes políticos ou “conexos”. Virou lei em votação apertada – 206 a 201 – e o termo “conexos” abrigou os crimes cometidos pelos agentes de Estado.

Em abril de 2010, o Supremo Tribunal Federal se manifestou contra mudanças na lei, em ação impetrada pela Ordem dos Advogados do Brasil. Oito meses depois, a Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o Brasil a investigar e julgar os responsáveis pelos crimes cometidos durante a repressão à Guerrilha do Araguaia. Para o tribunal, a Lei de Anistia não é compatível com a Convenção Americana sobre Direitos Humanos, assinada pelo Brasil em 1992. Por causa da divergência, o Supremo está para se debruçar de novo sobre o tema e pode dar nova interpretação à Lei de Anistia. Ações que tramitam na Justiça também podem acabar excluindo os agentes repressores dos benefícios da lei. É o caso da morte do deputado cassado Rubens Paiva, em maio de 1971. Como o seu corpo jamais foi encontrado, o Ministério Público Federal defende que se trata de um crime permanente. Não pode, portanto, ser anistiado.

Evo Morales assume terceiro mandato na Bolívia

Morales vai receber dois bastões – que simbolizam a passagem do poder do povo andino – de uma criança e de uma anciã


As cerimônias de posse do presidente da Bolívia, Evo Morales, em seu terceiro mandato, começam nesta quarta-feira (21) com um ritual ancestral indígena e se estendem até amanhã (22). Neste primeiro dia, o evento ocorre em Tiwanaku, sítio arqueológico classificado de precursor do Império Inca, o que é uma tradição nas posses presidenciais. Durante a cerimônia, Morales vai receber dois bastões – que simbolizam a passagem do poder do povo andino – de uma criança e de uma anciã.

15 de Fevereiro de 2007 - Brasília - Os presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Evo Morales (Bolívia) assinaram acordos de cooperação. Evo prometeu que não deixará faltar gás natural no Brasil (Roosewelt Pinheiro 

Representantes de movimentos sociais e de comunidades tradicionais estão no local para as celebrações. No dia 22, as comemorações ocorrerão na Assembleia Legislativa, em La Paz (capital administrativa), a 72 quilômetros de Tiwanaku. 

Morales foi reeleito para um mandato de cinco anos, com 61% dos votos válidos. Além dele, também concorreram à Presidência Samuel Doria Medina, empresário do ramo de cimento; Jorge Quiroga, que foi vice-presidente do país por quatro anos e, em seguida, assumiu como presidente pelo período de um ano; o prefeito de La Paz, Juan del Granado, e o líder indígena Fernando Vargas. 

Eleito pela primeira vez em 2005, Evo Morales é o primeiro presidente indígena boliviano, povo que representa cerca de 60% da população do país. A presidenta Dilma Rousseff vai participar do segundo dia da cerimônia de posse, em La Paz.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Quanto é preciso para estar entre o 1% mais rico do planeta?

Aproximadamente 295 mil brasileiros já fazem parte desse grupo seleto, segundo o Credit Suisse

Multimilionários representam 0,001% da sociedade mundial, segundo estudos Foto: Regis Duvignau / Reuters

A carteirinha do clube que reúne a parcela mais rica do planeta custa US$ 798 mil (cerca de R$ 2,1 milhões), segundo um estudo da organização não governamental britânica Oxfam. Esse é o patrimônio que um indivíduo precisa ter para fazer parte do 1% mais abastado da população mundial.

Aproximadamente 295 mil brasileiros já fazem parte desse grupo seleto, de acordo com dados de um outro estudo, do grupo financeiro Credit Suisse, divulgado no fim do ano passado.

Segundo a Oxfam, o 1% da população mundial será dono de mais de 50% das riquezas do planeta no ano de 2016. Porém, na prática, fazer parte dessa camada não significa viver uma vida entre jatinhos e mansões em diversos continentes.

É que, embora o patrimônio de R$ 2,1 milhões seja inalcançável para a maioria dos habitantes do planeta, muitas pessoas que se consideram de classe média em diversos países atingem essa cifra de ativos devido ao preço dos imóveis que possuem.

Os "verdadeiros" multimilionários representariam apenas 0,001% da população mundial, segundo os estudos.

Extremos
O estudo Global Wealth Databook, do Credit Suisse, apontou que há cerca de 35 milhões de pessoas no planeta com patrimônios avaliados entre US$ 1 milhão (R$ 2,65 milhões) e US$ 50 milhões (R$ 132 milhões). Cerca de 15 milhões vivem na América do Norte, 11,7 milhões na Europa e 6,7 milhões na Ásia.

Já a parcela dos multimilionários (donos de mais de US$ 50 milhões ou R$ 132 milhões) engloba 128 mil pessoas ao redor do mundo. Na América Latina, o Brasil é o país com a maior quantidade desses indivíduos: aproximadamente 1.900.

No ápice da riqueza global estariam 92 pessoas com patrimônios superiores a US$ 1 bilhão (R$ 2,6 bilhões). Juntos, eles teriam mais dinheiro que a metade mais pobre da humanidade. Segundo o estudo da Credit Suisse, a metade mais pobre da população têm patrimônio inferior a US$ 3.660 (cerca de R$ 9,6 mil) per capita.

"É incrível a quantidade de riqueza nas mãos de 0,001% (da população), por isso decidimos calcular o patrimônio desses multimilionários", disse à BBC Mundo Nick Galasso, pesquisador da Oxfam América.

'Aspirações'
Para o editor de economia da BBC, Robert Peston, o nível de desigualdade que essas cifras refletem "é preocupante, e não apenas para aqueles na base da pirâmide de riquezas".

"Uma das razões de preocupação é que as pessoas pobres com aspirações de ascensão têm grandes incentivos para contrair níveis excessivos de dívidas para manter seus estilos de vida, o que aumenta a tendência da economia sofrer crises financeiras", diz Peston.

"Outra razão é que, em conjunto, os pobres gastam mais que os ricos (porque um bilionário não costuma comprar mais que alguns iates, e boa parte de sua fortuna fica guardada). Assim, o crescimento ocorre de maneira mais rápida quando os recursos se distribuem de maneira mais igualitária", segundo Peston.

Para a Oxfam, a atenção ao problema por parte dos dirigentes políticos mundiais está aumentando. Mas ainda não há soluções à vista.

"No último ano foram dadas muitas declarações de líderes mundiais como Barack Obama e Christine Lagarde, do Fundo Monetário Internacional, sobre o aumento da desigualdade. Mas não se viu muita ação e o problema está piorando", disse Nick Galasso.

 

'Temos de construir uma economia na qual o bem das pessoas, e não o dinheiro, seja o centro'.

Em entrevista, Papa fala sobre pobreza, economia e justiça social: 'os mercados e as especulações financeiras não podem gozar de autonomia absoluta'

Mazur/catholicnews.org.ukRoma.- “Marxista”, “comunista” e “pauperista”: as palavras de Francisco sobre a justiça social e seus frequentes chamados pro todos os necessitados acarretaram críticas e, inclusive, acusações. Como o papa Bergoglio vive tudo isso? Por que o tema da pobreza esteve tão presente em seu magistério? É o que apresentam os jornalistas italianos Andrea Tornielli e Giacomo Galeazzi em um livro dedicado ao pensamento do Papa sobre a economia, e que inclui a entrevista abaixo:


Santidade, o capitalismo tal como o estamos vivendo nas últimas décadas é, segundo sua opinião, um sistema de alguma forma irreversível?


Eu não saberia como responder a esta pergunta. Reconheço que a globalização ajudou muitas pessoas a sair da pobreza, mas condenou muitas outras a morrer de fome. É certo que, em termos absolutos, aumentou a riqueza mundial, mas este sistema se mantém com essa “cultura do descarte” da qual falei em várias ocasiões. Existe uma política, uma sociologia e uma atitude do descarte. Quando já não é o homem, senão o dinheiro, o que ocupa o centro do sistema, quando o dinheiro se transforma em um ídolo, os homens e as mulheres são reduzidos a meros instrumentos de um sistema social e econômico caracterizado, e dominado por profundos desequilíbrios. E assim se “descarta” o que não serve a esta lógica: é essa atitude que descarta as crianças e os anciãos, e que agora também afeta os jovens. Impressionou-me saber que, nos países desenvolvidos, existem muitos milhões de jovens menores de 25 anos que não têm trabalho. Às vezes, me pergunto qual será o próximo descarte. Devemos parar a tempo. Eu diria que não devemos considerar essas coisas como irreversíveis, não devemos nos resignar. Tratemos de construir uma sociedade e uma economia na qual o homem e seu bem, e não o dinheiro, sejam o centro.


Seria possível acontecer uma mudança, uma maior atenção à justiça social, graças a uma economia que fosse mais ética? Ou pode-se pensar em mudanças estruturais no sistema?


Antes de mais nada, é preciso lembrar que é necessária uma ética na economia e também na política. Muitas vezes, vários dos chefes de Estado e líderes políticos que conheci depois de minha escolha para bispo de Roma me falaram disso. Disseram: os senhores, os líderes religiosos, têm que nos ajudar, nos dar indicações éticas. Sim, o pastor pode fazer chamados, mas estou convencido de que são necessários, como lembrou Bento XVI na encíclica Caritas in veritate, homens e mulheres com os braços elevados em direção a Deus para rezar, conscientes de que o amor e o compartilhamento dos quais deriva o autêntico desenvolvimento não são um produto de nossas mãos, mas um dom pelo qual é preciso pedir. E, ao mesmo tempo, estou convencido de que é necessário que esses homens e essas mulheres se comprometa, em todos os níveis, na sociedade, na política, nas instituições e na economia, colocando no centro do bem comum. Já não podemos esperar para resolver as causas estruturais da pobreza, para curar nossas sociedades de uma doença que só pode nos levar para uma nova crise. Os mercados e as especulações financeiras não podem gozar de uma autonomia absoluta. Nunca resolveremos os problemas do mundo sem uma solução dos problemas dos pobres. São necessários programas, mecanismos e processos orientados a uma melhor distribuição dos recursos, à criação de empregos, à promoção integral dos excluídos.


Muitos se surpreenderam com suas palavras sobre os pobres “carne de Cristo”. Incomoda o fato de o acusarem de “pauperismo”?


O pauperismo é uma caricatura do Evangelho e da própria pobreza. Ao contrário, São Francisco nos ajudou a descobrir o vínculo profundo que existe entre a pobreza e o caminho evangélico. Jesus afirma que não se pode servir a ambos, a Deus e às riquezas. É pauperismo? A pobreza evita idolatria, o sentir-se autossuficiente. Zaqueu, depois de ter cruzado com o olhar misericordioso de Jesus, deu a metade do que tinha aos pobres. A mensagem do Evangelho é dirigida a todos. O Evangelho não condena os ricos, mas sim a idolatria da riqueza, essa idolatria que nos torna insensíveis aos gritos dos pobres. Jesus disse que, antes de oferecer nosso dom diante do altar, devemos nos reconciliar com nosso irmão, para estar em paz com ele. Acredito que possamos, por analogia, estender esse pedido para estar em paz com nossos irmãos pobres.


O senhor ressaltou a continuidade da tradição da Igreja com essa atenção aos pobres. Poderia dar algum exemplo?


Um mês antes de inaugurar o Concílio Ecumênico Vaticano III, o Papa João XXIII disse: “A Igreja se mostra como é e como quer ser: como a Igreja de todos e, particularmente, a Igreja dos pobres”. Anos depois, a escolha pelos pobres entrou nos documentos do magistério. Alguém poderia pensar em uma novidade. Ao contrário, trata-se de uma atenção que tem sua origem no Evangelho e se encontra documentada já nos primeiros séculos do cristianismo. Não é uma invenção do comunismo e não se deve ideologizá-la, como às vezes ocorreu durante a história. A Igreja está longe de qualquer interesse político e de qualquer ideologia: movida unicamente pelas palavras de Jesus, quer oferecer seu aporte à construção de um mundo no qual uns ajudem os outros e no qual uns cuidem dos outros.


UMA OBRA SOBRE SEU MAGISTÉRIO



Papa Francisco. Esta economia mata, o livro sobre o magistério social de Jorge Bergoglio, estará à venda na Itália na próxima terça-feira. A obra retoma e analisa os discursos, documentos e demais intervenções de Francisco sobre pobreza, imigração, justiça social e salvaguarda da criação. Interpela também especialistas em economia, finanças e doutrina social da Igreja – entre eles, o professor Stefano Zamagni e o banqueiro Ettore Gotti Tedeschi; também conta sobre as reações que certas posturas do Papa suscitaram.

Papel da CUT e dos movimentos é combater retrocesso

Para presidente da Central, apostar na derrubada da economia para conter inflação coloca em risco o emprego e as conquistas dos últimos 12 anos

O ano de 2015 não seria fácil e isso o movimento sindical já sabia logo após o final das eleições. A posse de um Congresso ainda mais reacionário que o anterior e as cobranças da coalisão que ajudou a eleger a presidenta Dilma eram garantia de muitas pedras no caminho para a continuidade do desenvolvimento com distribuição de renda e inclusão social.

Surpreendente foi o pacote de medidas que o governo federal anunciou de início, por meio de Medidas Provisórias (MPs) 664 e 665, que atacavam conquistas caras aos trabalhadores, especialmente os mais pobres, como o seguro-desemprego e o abono salarial.

Nessa segunda (19), em reunião da CUT e das demais centrais sindicais com os ministros da Secretaria-Geral da Presidência da República (Miguel Rosseto), do Planejamento (Nelson Barbosa), da Previdência (Eduardo Gabas) e do Trabalho (Manoel Dias), o Executivo frustrou as expectativas ao dizer que não revogaria as medidas. Mas, ao menos acenou com a possibilidade de mudanças no conteúdo das ações.

Em entrevista, o presidente nacional da CUT, Vagner Freitas, destaca que o princípio de derrubar a economia para conter a inflação é um equívoco, tanto quanto abrir o capital da Caixa Econômica Federal. Ele apontou ainda que a Central terá como eixo central de 2015 a luta por direitos e contra a direita e defendeu uma manifesto em defesa da Petrobrás.

Portal da CUT – O que a reunião de ontem com os ministros tirou de concreto?
Vagner Freitas – A CUT deixou claro ao governo que é contrária às medidas provisórias. Contrária à forma, porque foram feitas sem negociação conosco, e ao conteúdo, porque os trabalhadores não arcarão com a conta de um ajuste fiscal que o governo queira fazer. O governo chegou dizendo que não é retirada de direitos, mas é sim e não temos concordância com isso. Há outros atores na sociedade com muito mais condições de arcarem com esse ajuste do que os trabalhadores que acessam o salário–desemprego, a pensão por morte, o auxílio-doença. Falamos para o governo, por exemplo, tributar as grandes fortunas. O sujeito compra iate, lancha e não é tributado. Assim como não é mais necessário o Brasil ter uma ditadura do superávit primário. O tempo todo estamos condicionando a economia ao pagamento aos rentistas. Deve haver equalização das contas, porém, o governo está, inclusive, utilizando argumentos inconsistentes ao dizer que há fraude nos benefícios. Temos que fazer análise e punir os fraudadores, mas não simplesmente alegar que todo o sistema é fraudulento. Além disso, o valor da economia é irrisório para as contas do governo e muito caro para os trabalhadores que perdem o direito.

A expectativa é que as medidas fossem revogadas, já que tínhamos quatro ministros no encontro. Há hipótese de isso acontecer?
Vagner – Obviamente, os ministros não acharam que iriam convencer as centrais de que as medidas estavam corretas. Com base no estudo do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), comprovamos que se tratava de perda de direitos e, após apresentarem medida por medida, reafirmamos nossa contrariedade e solicitamos que revogassem as medidas para abrirem negociação conosco. Eles afirmaram que não poderiam revogar por uma questão de tempo, caso contrário, não poderiam ser aplicadas em 2016, mas apontaram um espaço para negociação. Faremos uma nova reunião entre centrais e o governo no dia 3 de fevereiro e, antes, haverá uma reunião entre nossos técnicos e do Executivo para levarmos nossas propostas.

Pelas primeiras medidas que vemos o governo adotar, parece que teremos novamente a velha fórmula de derrubar a economia para controlar a inflação. O caminho é esse?
Vagner – Minha preocupação é muito maior do que com as medidas vistas isoladamente. O que eu questiono é qual a linha política e econômica que esse governo irá desenvolver. Porque durante a campanha eleitoral fizemos debate do desenvolvimentismo contra o conservadorismo. Os apoiadores da campanha derrotada tinham o discurso da necessidade de frear a economia e o consumo e diminuir o valor do salário mínimo, até fazendo relação entre o crescimento do mínimo em contraposição ao menor crescimento da produtividade das empresas. Diziam que esse ciclo de construção de política de crédito e de expansão do mercado interno tinha acabado. O governo se elegeu com um discurso contrário a esse e as primeiras medidas, quando o governo anuncia ajuste e não taxa a lucratividade dos empresários, nos deixa preocupados. Temos que fazer um acordo com a sociedade brasileira pelo desenvolvimento e pelo crescimento da economia. A preocupação da CUT é que a política econômica de Joaquim Levy e seus pares seja do corte, do corte, do corte e do corte que leva à recessão, ao não crescimento da economia, à expansão da inflação e ao aumento da taxa de juros. E isso significa desemprego e dificuldade enorme para ter aumento real nas campanhas salariais. Parece que o governo está derrubando a economia para conter a inflação e por isso mexe no seguro-desemprego, porque sabe que quando derruba a economia e não tem investimento, o desemprego sobe. Essa política conservadora tem sido adotada em boa parte do mundo e não tem dado resultado, em especial para os trabalhadores.

A CUT tem batido bastante na tecla da revitalização das cadeias produtivas, assunto que ganhou ainda mais espaço com a demissão (e posterior readmissão) dos metalúrgicos do ABC no início do ano. Como é possível fazer isso?
Vagner - 
Com câmbio e juros como estão, qualquer medida é paliativa e a indústria continuará com dificuldades. Claro que o choro dos empresários também precisa ser visto com ressalva, porque não é que as indústrias estão quebrando, mas sim deixaram de investir na produção. Percebe-se que boa parte da rentabilidade da Volkswagen foi com aquisição de papéis. Fica em crise o trabalhador que perde emprego e tem o salário arrochado e não o industrial, porque esse continua com o mesmo padrão de vida, avançando no rentismo e não na produção. O governo tem de ter uma política que ancore o crescimento da indústria, mas não pode compactuar com esse tipo de postura das indústrias, de obter um lucro fácil no mercado financeiro. Mas tem de ter linha de crédito para produção, para obtenção de novas tecnologias, para qualificação profissional, para geração de empregos. E isso deve ser com investimento público, com uma economia voltada ao crescimento.

A política de valorização do mínimo corre risco?
Vagner - 
A presidenta prometeu que continuará com essa política. Agora, depende da reação da política econômica. Se você tiver recessão, juros altos e deixar de crescer, vai ter desemprego. Com desemprego haverá pressão para que não tenha mais aumento do salário mínimo nos níveis praticados nos últimos anos. Já temos um problema, porque a regra construída era combinar PIB (Produto Interno Bruto) e inflação, porém, se não tem crescimento do PIB, só sobra a inflação para o trabalhador. Mesmo a presidenta prometendo que não vai alterar, a economia recessiva não dá condição de manter aumento real acima da inflação e a correção do mínimo. Para o discurso da presidenta tomar prática é preciso que a política do senhor Joaquim Levy (ministro da Fazenda) não seja recessiva.

As denúncias sobre casos de corrupção na Petrobras continuam em pauta tanto quanto a desvalorização da empresa. É possível reverter isso?
Vagner – A CUT e seus sindicatos discutirão em todo o país a defesa da Petrobras e de seus trabalhadores por meio de um manifesto que debata com a sociedade brasileira a atrocidade que tem sido cometida contra a maior empresa brasileira, responsável por quase 13% do PIB. Se há irregularidades, que sejam punidos os culpados, mas estamos num processo de desmonte da empresa para prepará-la para a privatização e entregá-la à economia internacional, como queria o Fernando Henrique Cardoso, que pretendia transformar a Petrobras em Petrobrax. Se fosse aberta e repassada para a iniciativa privada, alguns interessados ganhariam muito dinheiro. A proposta é que tenhamos investimento do Estado para mantermos uma empresa forte nacional, gerando empregos aqui e não fiquemos na dependência do capitalismo internacional. Entre as empresas de capital aberto, a Petrobras se tornou a maior produtora de petróleo do mundo, para você ver como é atrativa e atraente para o mercado internacional.

As denúncias já resultam em demissão de trabalhadores prestadores de serviço. A CUT dialogou com o governo sobre isso?
Vagner - 
Primeiro, precisamos ter claro se, por conta desse momento turbulento, a Petrobras não repassa o recurso para a empresa ou se repassa e os prestadores de serviço acertam suas dívidas e não paga os trabalhadores. Sabemos que há mais de 12 mil nessa condição e exigimos que aja uma solução. Já procuramos o governo para dizer que o trabalhador não pode ser penalizado. Defendemos que exista o pagamento direto da Petrobras para os trabalhadores numa conta que não passe pelas empresas, que seja via Ministério do Trabalho, mas que sejam pagos e não aja demissão.

Em relação às privatizações, especula-se também a possibilidade de abertura do capital da Caixa. Qual a posição da CUT sobre esse tema?
Vagner – O debate foi colocado de uma forma completamente equivocada, criou intranquilidade enorme para trabalhadores e deixou grande dúvida. A CUT é contra, porque a Caixa é uma empresa sob controle do Estado e, por isso, tem liberdade para estabelecer políticas de apoio ao crédito, à habitação, de intervenção do Estado na economia, enfrentando o rentismo privado. A partir do momento em que vira empresa de economia mista, passa a ter certos controles que a legislação impõe e dificulta ações públicas inerentes a um governo que intervenha na economia em favor do desenvolvimento social. E, pior, o governo não disse porque faria isso. Espero que não tenha a perspectiva de engordar o superávit primário ou mostrar ao mercado que está sendo austero. Essa seria uma visão imediatista e não estratégica. Outra dúvida é se o governo manterá as políticas sociais com uma Caixa de economia mista. Tirará recursos de onde, do Tesouro? Ou pensa em não manter e diminuir os investimentos em políticas sociais? Vamos ceder à pressão das instituições privadas, que não tem relação com crescimento do Brasil, com oferta de juros, de crédito, e vamos abrir o mercado sem regulamentação? Por isso a forma como foi colocada em debate foi desastrosa. O governo precisa avaliar quais instrumentos que ter para fazer políticas públicas e intervir na oferta de crédito quando o setor privado não tem a menor intenção de fazer.

Em 2015, qual vai ser o eixo prioritário de luta da CUT?
Vagner - 
A manutenção dos direitos, do emprego e uma política de crescimento econômico. As primeiras medidas do governo demonstram que sabe que há um descontrole e quer controlar a inflação, mas não concordaremos que esse controle seja feito à custa da manutenção dos empregos. A manutenção dos postos de trabalho é essencial. Fica claro também que se trata de um governo de coalisação, de disputa, que tem pessoas como a presidenta, que é progressista, partidos como o PT, que é progressista, mas também aliados altamente conservadores, que empurram governo para uma gestão conservadora. O papel da CUT e dos movimentos sociais é empurrar para a esquerda, dar condição para a presidenta Dilma colocar em prática o discurso que fez quando ganhou as eleições e que era completamente diferente do discurso do candidato derrotado. Precisamos fazer muita mobilização. Não é a toa que faremos um Dia Nacional de Luta, em 28 de janeiro, a Marcha da Classe Trabalhadora no dia 26 de fevereiro e vamos ter que fazer muita mobilização de rua. Nosso mote neste ano será “pelos direitos e contra a direita.” Pelos direitos dos trabalhadores, nenhum direito pode ser retirado, pela manutenção do emprego, para que continuemos a ter aumento real de salário, e contra essa direita preconceituosa, virulenta, que não aceita o resultado das eleições, que pede impeachment da presidenta legitimamente eleita e que tenta inviabilizar governo com todas as dificuldades. Eu critico o governo quando erra, mas é a alternativa contra a candidatura que foi derrotada. Porém, não podemos ter retrocesso político ou econômico, não adianta vencer as eleições e colocar a agenda conservadora em prática. Não é a toa que temos nos reunido com movimentos sociais, que somos parte da Frente Nacional de Esquerda que estamos criando e constituindo com esse mote.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Relatório da CNV relata técnicas de torturas durante a ditadura militar

Relatório da Comissão Nacional da Verdade detalha as técnicas usadas para obter informações de presos. Além de cobaias em aulas de torturas, aqueles que não resistiam eram incinerados

 

Rodrigo Silveira/Folha da Manhã


Tema obscuro na história brasileira, a prática da tortura durante o período militar recebeu atenção especial nas investigações da Comissão Nacional da Verdade (CNV). Das 434 vítimas de morte do regime, 191 foram por execução sumária ou decorrente de torturas. A dificuldade em conseguir registros sobre o que se passava nos porões da ditadura e dos próprios sobreviventes em lidar com momentos traumáticos fizeram com que detalhes do que se passou nos 21 anos do regime militar ficassem por muito tempo esquecidos. No relatório da comissão estão descritos métodos usados para obter informações de presos políticos, que trazem à tona horrores pouco conhecidos, como o uso de presos como cobaias em aulas de tortura e a incineração de corpos de prisioneiros que não resistiram aos maus-tratos na usina de Cambahyba, no interior do Rio de Janeiro. 

Dois capítulos do relatório, divulgado em 10 dezembro, tratam de casos específicos de mortes sob tortura e a constituição de um estrutura do Estado para a prática. Na primeira parte, o levantamento aborda os treinamentos recebidos por agentes brasileiros para aprender técnicas de tortura em escolas militares norte-americanas e britânicas. “Embora as Forças Armadas brasileiras ainda tratem veladamente do assunto, oficiais do Exército e da Aeronáutica mencionam em depoimentos a participação em cursos na escola norte-americana do Panamá”, diz o relatório.

Ao lado de oficiais de outros países latinos, que também viviam regimes ditatoriais, os militares brasileiros passaram períodos no exterior aprendendo técnicas para obter confissões e informações de prisioneiros. Em depoimento prestado no ano passado, o coronel Paulo Malhães revelou algumas das técnicas aprendidas na Inglaterra, que já vinham sendo usadas no Reino Unido no tratamento de presos políticos da Irlanda do Norte. Impedir o sono do prisioneiro e submetê-lo a grandes barulhos foram alguns dos métodos ensinados pelos britânicos.

 “A metodologia da tortura se tornou um objeto de saber, um campo de conhecimento, produzido e transmitido entre os militares. Suas técnicas eram uma matéria ensinada aos membros das Forças Armadas, inclusive com demonstrações práticas, como declarados por presos políticos usados como cobaias nessas aulas”, aponta o relatório.

Entre os relatos de vítimas que serviram como cobaias está o depoimento de Dulce Pandolfi, que em 20 de outubro de 1970 foi usada para as demonstrações de técnicas a um grupo de cerca de 20 oficiais. “O professor, diante de seus alunos, fazia demonstrações com meu corpo. Enquanto levava choques elétricos, pendurada no pau de arara, ouvi o professor dizer: ‘Essa é a técnica mais eficaz’. Como comecei a passar mal, a aula foi interrompida e fui levada para a cela. A segunda parte da aula foi no pátio. Ali fiquei um bom tempo amarrada no poste, com um capuz na cabeça. Fizeram um pouco de tudo”, contou Pandolfi.

USINA DA MORTE Segundo o balanço final da Comissão da Verdade, 243 pessoas foram vítimas de desaparecimento forçado, parte delas mortas depois de longas sessões de tortura, e tiveram os corpos destruídos por militares. Um dos locais usados para o sumiço de corpos foi a Usina de Cambahyba, no interior do Rio de Janeiro. Em depoimento à CNV, o ex-delegado Cláudio Guerra contou que fez várias vezes o transporte de corpos retirados da Casa da Morte, local usado para tortura e execução de presos políticos em Petrópolis.

A usina era propriedade do industrial Heli Ribeiro Gomes, vice-governador do Rio entre 1966 e 1970, que teria sido procurado por militares para emprestar alguns fornos para a incineração de presos políticos assassinados pelo regime. “No período de 1974 e 1975, na mudança da política americana, começou uma pressão muito grande em cima do governo brasileiro por causa do desaparecimento de corpos. Os coronéis que estavam no comando queriam um meio para fazer (os corpos) desaparecer mesmo. Então, foi dada essa ideia de incinerar os corpos. Foi então mudado o sistema”, explicou Guerra.

Segundo o ex-delegado, as vítimas que não resistiam às torturas ou que foram sumariamente executadas eram retiradas da Casa da Morte durante a noite em sacos pretos e levadas até a usina. “Apresentei o Heli, então vice-governador, para o comandante. Sabia que eles queriam sumir com os corpos. Outras usinas da região pertenciam a grupos de empresários, mas Cambahyba era só dele. De noite, trazíamos os corpos e os colocávamos nas fornalhas. Muitos vieram da casa de Petrópolis. As cinzas eram jogadas em um tanque, que era chamado de piscina”, afirmou Guerra, que publicou em 2012 relatos de sua trajetória como militar no livro Relatos de uma guerra suja.