Britânicos
ensinaram "tortura psicológica" a militares brasileiros na ditadura.
Documentos e depoimentos obtidos com exclusividade pela BBC revelam um
lado pouco conhecido da ditadura militar brasileira – a de que autoridades da
Grã-Bretanha colaboraram com generais brasileiros – inclusive ensinando
técnicas "avançadas" de interrogação equivalentes a tortura. A
repórter da BBC Emily Buchanan apurou a história.
Alvaro Caldas pertencia a um grupo
comunista quando foi preso em 1970. Ele passou dois anos preso dentro de um
quartel da polícia militar no Rio de Janeiro.
Ele foi submetido a espancamentos, choques e pendurado no "pau de
arara" – amarrado de cabeça para baixo por horas.
Ao ser solto, ele desistiu da política e passou a se dedicar ao jornalismo
esportivo. Em 1973, voltou a ser preso. Caldas foi levado ao mesmo prédio, mas
tudo estava diferente por lá.
"Desta vez, a cela estava limpa e esterilizada, com um cheiro nauseante. O
ar condicionado era muito frio. A luz estava permanentemente acesa, então eu
não tinha ideia se era dia ou noite. Eles alternavam sons muito altos e depois muito
baixos. Eu não conseguia dormir de jeito nenhum."
Alvaro conta que a sensação avassaladora que sentia era medo. De tempos em
tempos, alguns oficiais entravam na cela, o encapuzavam e levavam para
interrogações. Ele sentia que o objetivo era desestabilizá-lo, fazendo-o
confessar algum crime que não havia cometido.
Isso não era tortura física, mas sim uma pressão psicológica intensa.
"Por sorte, só passei uma semana lá. Se tivesse ficado duas semanas ou um
mês, teria enlouquecido."
'Sistema inglês'
Formatos
alternativos
Esta nova técnica de interrogação ficou conhecida como "sistema
inglês". Depoimentos coletados pela Comissão Nacional da Verdade – criada
pelo governo para investigar episódios ocorridos durante a Ditadura Militar –
explicam o porquê.
Nas mais de 20 horas de seu depoimento, o coronel Paulo Malhães – um dos mais
temidos torturadores e que morreu poucos dias depois – ganhou destaque nacional
ao confessar ter torturado e mutilado diversas vítimas.
Malhães expressou grande admiração pela tortura psicológica que, para ele, era
muito mais eficiente do que a força bruta, especialmente quando a tentativa era
de transformar militantes de esquerda em agentes infiltrados.
"Naquelas prisões com portas fechadas, você podia mudar a temperatura, a
luz, tudo dentro da prisão. A ideia veio da Inglaterra", disse ele.
Prédio da PM no Rio. Foto: BBC
Celas no quartel-general da polícia do Rio foram modificadas para abrigar novas
técnicas
Ele admitiu, em conversa em privado com a advogada e integrante da Comissão da
Verdade do Rio, Nadine Borges, que viajou à Inglaterra para aprender técnicas
de interrogação que não deixavam marcas físicas. Borges relatou detalhes de sua
conversa com Malhães à BBC.
"A melhor coisa para ele era a tortura psicológica. Ele também esteve em
outros lugares, mas disse que a Inglaterra foi o melhor lugar para
aprender."
'Melhor escola'
O professor Gláucio Soares entrevistou vários generais nos anos 1990. Muitos
contaram que enviaram militares à Alemanha, França, Panamá e Estados Unidos para
aprender sobre interrogatórios, mas todos elogiaram a Grã-Bretanha como o
melhor lugar de aprendizado.
O general Ivan de Souza Mendes teria dito a Soares: "Os americanos também
ensinam, mas os ingleses é que são os mestres em ensinar como arrancar confissões
sob pressão, por tortura, de todas as formas. A Inglaterra é o modelo de
democracia. Eles dão cursos aos seus amigos".
O general Fiuza de Castro disse que os britânicos recomendam deixar os
prisioneiros nus antes de interrogá-los, para deixá-los angustiados e
deprimidos – um estado que favorece o interrogador.
As técnicas teriam sido criadas nos anos 1960 em territórios britânicos na Ásia
e aperfeiçoadas contra militantes na Irlanda do Norte.
O método ficou consagrado em inglês como "Five Techniques", ou
"Cinco Técnicas":
Manter a pessoa de pé contra uma parede por muitas horas
Encapuzar
Sujeitar a grandes barulhos
Impedir o sono
Pouca comida e água
Muitos dizem que essas técnicas equivalem à tortura. Em 1972, elas foram
oficialmente proibidas pelo premiê Edward Heath, depois que o público tomou
conhecimento que eram usadas contra os militantes irlandeses do IRA.
Mas no Brasil, os métodos de interrogatório
psicológico seguiram adiante, atendendo as necessidades dos militares. O
péssimo histórico de direitos humanos do Brasil estava começando a atrair
publicidade negativa no mundo. Um método que não deixava marcas físicas era
considerado perfeito pelos militares para extrair informações.
Desaparecidos
Comissão da Verdade quer saber o que aconteceu com a longa lista de
desaparecidos
Aparentemente, não só os militares brasileiros foram à Grã-Bretanha, mas o
inverso também aconteceu. O ex-policial Claudio Guerra disse que agentes
britânicos deram cursos no quartel-general da polícia militar sobre como seguir
pessoas, grampear telefones e usar as celas isoladas.
Guerra disse que viu esses agentes britânicos nas ocasiões em que visitou o
quartel-general para recolher corpos de vítimas que sofreram com os métodos
antigos.
Correspondências
Há mais pistas sobre a relação entre militares britânicos e brasileiros no
prédio dos Arquivos Nacionais, na região londrina de Kew.
Em agosto de 1972, o então embaixador britânico no Brasil, David Hunt, escreveu
uma carta secreta a uma autoridade com referência aos métodos mais sofisticados
usados pelos brasileiros.
Ele escreveu: "Como você sabe, eu acho, eles (os militares brasileiros)
foram influenciados por sugestões e conselhos emitidos por nós; mas esta
conexão não existe mais... É importante que o conhecimento deste fato fique
restrito."
Na véspera de uma visita do então presidente Ernesto Geisel à Grã-Bretanha, em
1976, havia uma referência indireta à uma "reforma da tortura". Uma
das cartas fala de "padrões aceitáveis de interrogatório (por exemplo, o
que é permitido na Irlanda do Norte)".
Documento confidencial britânico
Um documento intitulado "Tortura no Brasil" classificado como
"confidencial" fala da péssima publicidade que o Exército brasileiro
estava recebendo mundialmente, e de como foram adotadas novas técnicas baseadas
em métodos psicológicos.
"O Primeiro Batalhão do Rio estaria usando agora as novas técnicas, cuja
introdução foi descrita por um comandante do Exército como uma página tirada da
cartilha britânica."
A correspondência do ministério britânico das Relações Exteriores deixa claro
que interesses comerciais eram de suma relevância e que o péssimo histórico de
direitos humanos do Brasil era subestimado.
Alan Munro, que foi cônsul geral britânico no Rio nos anos 1970, disse que,
pessoalmente, não tinha conhecimento da colaboração dos militares britânicos.
"Se os brasileiros estavam procurando técnicas de interrogatório usadas
por autoridades britânicas, o melhor exemplo vinha dos primeiros anos da
Irlanda do Norte. Isso teria sido aprendido por inciativa dos brasileiros, e no
sentido de reduzir as práticas mais crueis, isso teria sido um passo no caminho
certo", diz Munro.
Mas os brasileiros não veem isso como "um passo no caminho certo".
O diretor da Comissão da Verdade do Rio, Wadih Damous, disse que há anos conhece
o envolvimento dos Estados Unidos no treinamento de militares do regime
brasileiro, e que ficou indignado ao tomar conhecimento do papel dos
britânicos.
"É sempre chocante ouvir que uma democracia que é tão importante, tão
consolidada, tão velha, colaborou com a ditadura", disse Damous.
A BBC pediu uma declaração oficial ao ministério das Relações Exteriores da
Grã-Bretanha. Um porta-voz disse que "não pode fazer comentários sobre
administrações passadas", mas que qualquer política atual do governo de
colaboração internacional cumpre com exigências de direitos humanos
estabelecidas dentro do país.